3 meses pós-parto e dei por mim a precisar de reequilibrar as minhas emoções. E, confesso, que o processo de seleção dos florais me foi desafiante. Talvez por esse motivo o tenha adiado, por tanto tempo… A verdade é que tinha de perceber, em mim, que emoções se andavam a manifestar e, quanto mais atentava nelas, mais confusa me sentia.
“Talvez possa optar pelos mesmos florais que estava a tomar, antes de ser mãe?”, pensava. Mas… como? Se a Marília que existia, antes, já não existe mais? Se esse meu capítulo chegou ao fim e ainda não consigo perceber o que está a ser escrito, no capítulo que agora se iniciou… Não, tinha de olhar para dentro de mim e perceber o que estava a vir ao de cima. Só assim conseguiria selecionar os florais certos. E, oh boy, o quão difícil isso foi.
A maternidade trouxe-me muita dualidade. Querer tudo e nada, querer opostos e querê-los com a mesma força e o mesmo sentido de urgência.
Querer ficar, para sempre, neste casulo, nesta redoma do cuidar e de amor, em que os dias se fundem uns nos outros e se misturam, apagando quaisquer delimitações que nos indiquem que ontem foi ontem e que hoje é hoje. É como se vivesse num único dia, em contínuo, cujo conteúdo se resume a mudas de fraldas, sonecas e sestas, maminhas e leite, chupetas e resguardos. E é, ao mesmo tempo, querer desesperadamente sair. Voltar à rotina de trabalho. Voltar a ter horários e novos dias que se iniciam, com as suas promessas e potenciais. Querer voltar a sentir-me como uma pessoa independente, que tem sonhos e objetivos e que constrói a sua carreira profissional. É querer ser a mãe, cuidadora a tempo inteiro, que trabalha, também, a tempo inteiro. Como se o dia inteiro se traduzisse em 48 horas… É contar os dias para voltar ao trabalho, enquanto rezo para que esse dia nunca chegue.
É querer passar os dias a olhar para o meu filho, a absorver cada pequenino detalhe e certificar-me que nada se esquece e, com o passar do tempo, se possa perder para sempre. Ele nunca mais será tão pequenino, as mãozinhas dele nunca mais serão como são hoje e as nossas rotinas nunca serão tão interligadas como agora. Bolas, ainda no mês passado eram diferentes… e já mudaram. Já se perderam. Já fazem parte do passado. Querer, desesperadamente, parar o tempo, impedir que avance um dia que seja e, ao mesmo tempo, dar-lhe um empurrão para que avance mais depressa. Querer viver todos os momentos, com ele. Querer estar sempre presente. E, ao mesmo tempo, querer os meus momentos a sós. Querer a minha liberdade de volta, o poder sair de casa e só voltar ao fim do dia. Mas… e a culpa por querer fazê-lo? Que tipo de mãe sou eu, que quer estar sozinha e ter alguns momentos sem a presença do seu filho? Como posso (sequer) pensar em privá-lo desses momentos? Como posso (sequer) pensar em não o fazer e não me priorizar, também? Que tipo de mulher moderna, que se cuida, sou eu? É sentir-me culpada por querer e por não querer e sentir-me culpada por sentir tanta culpa.
Querer aprender a ser mãe, a dar de mim e colocar-me em segundo plano. Querer, desesperadamente, enveredar pelo caminho de regresso a mim, enquanto dou passos em direção ao único destino onde realmente quero chegar… onde o meu filho estiver.
E a relação com o meu corpo, que também foi engolida por esta esquizofrenia de emoções, que lhe faço? Como faço para amar o que agora não gosto, quando amo o que ele me trouxe? Olho ao espelho e vejo mudanças, que me incomodam e que fogem à imagem de perfeição que nos é imposta como a única aceitável e merecedora de valor. Mas, no meio do desgosto, surge o orgulho por um corpo que gerou vida e que foi brutalmente capaz de a trazer ao mundo.
No meio de tanta contradição, de gostar e desgostar, querer e não querer… não é fácil perceber o que se sente. Não é fácil nomear emoções e atribuir-lhes um floral. Mas eu permiti-me dar tempo a mim mesma e aguardei pelo serenar das ondas. E, quando a turbulência acalmou, as flores, enfim, surgiram. Claras, como a água, no meio do caos absoluto que é isto da maternidade.